02/08/2007


Fim da rebelião
Motim no Presídio Salvador é encerrado sem feridos e com atendimento das reivindicações dos detentos
Por Jony Torres, do Correio da Bahia

Depois de quase 80 horas, a rebelião do Presídio Salvador terminou, no final da tarde de ontem, sem nenhum ferido e com o atendimento de algumas das exigências dos quase 700 rebelados. Eles conseguiram o retorno de 14 dos 51 detentos anteriormente transferidos para a Unidade Especial Disciplinar (UED), e promessas de melhorias no tratamento das visitas, alimentação, além de uma maior celeridade no julgamento de processos judiciais.


Metade dos transferidos foi indicada pela comissão de presos que participou da negociação e os outros sete foram escolhidos pela Secretaria de Justiça e Direitos Humanos (SJDH). A negativa da liberação dos internos Maurício Vieira da Silva, o “Cabeção”, e Joseval Bandeira, o “Val Bandeira”, foi considerada uma vitória pelo promotor de Justiça, Renato Silva. “Em nenhum momento acenamos com a possibilidade e aceitar este pedido e por isso a resolução demorou tanto”, afirmou o promotor.


Antes de saírem, tanto os reféns quanto os familiares passaram por uma revista, receberam alimentação e uma avaliação médica. Os cinco reféns, três agentes penitenciários e dois presos com bom comportamento saíram sem sofrer qualquer tipo de agressão, segundo a Polícia Militar. Mas quatro familiares passaram mal e foram encaminhados para o Hospital Roberto Santos (HRS).


Os 150 familiares foram retirados do presídio em quatro ônibus. Os veículos saíram direto para a Estação de Transbordo de Pirajá, mas a maioria das esposas, mães e filhas dos detentos voltou para protestar diante do portão principal do complexo. “Estamos preocupadas com o que vai acontecer lá dentro pois existe o medo de um espancamento generalizado”, afirmou Elaine Santos Silva.


O coronel Wellington Muller, coordenador da equipe de gerenciamento de crises da Tropa de Choque, negou qualquer possibilidade de agressão. “Eu garanto que não serão cometidos abusos de nenhuma espécie. Os familiares podem ficar tranqüilos”, afirmou o Muller. Apesar das palavras do coronel, dezenas de familiares permaneceram do lado de fora gritando e demonstrando muita apreensão.


As visitas aos domingos estão suspensas por tempo indeterminado, mas as realizadas aos sábados e às quintas vão ser retomadas na semana que vem. Apesar do clima de aparente tranqüilidade, o risco de uma nova rebelião ainda existe. “Como em qualquer presídio do Brasil, o nosso tem suas deficiências na segurança e por isso não podemos garantir que outro episódio como este não se repita”, alertou o promotor.


Os primeiros sinais de que já havia um acordo chegaram através de informações passadas pelo grupo de pessoas que estavam de vigília na porta do Complexo. Um grito coletivo de comemoração pela provável libertação dos reféns ecoou quando o capitão Júlio César, um dos gerenciadores de crises da Tropa de Choque da Polícia Militar, chamou as esposas dos presos Val Bandeira e Cabeção. Os dois são considerados os sucessores do traficante Pitty no comando do presídio. As negociações no presídio foram conduzidas pelos detentos José dos Santos, “Rasta”, Marcos Costa dos Santos, “Cabeça” e outro de prenome Adriano.


No momento da saída, crianças, mulheres e alguns adolescentes se espremeram nas janelas na tentativa de acenar para algum parente, mas os motoristas foram orientados a não parar.
Enquanto olhavam felizes a saída das pessoas libertadas, muitos que estavam em frente ao complexo caíram no choro. “Acabou, acabou a agonia. Vou para casa encontrar a minha filha”, comemorou a dona de casa Anastácia Flores, mãe da namorada de um detento que estava entre as reféns.


Feliz também ficou a aposentada Nilza Silva Santos, mãe de Silmara Santos, esposa de um presidiário. A filha ficou retida quando visitava o marido acompanhada de um dos seus dois filhos gêmeos. “O que ficou lá dentro sei que passou fome e não tem mais fralda. O que ficou em casa está sem ser amamentado desde domingo”, explicou Nilza, muito emocionada.


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Momentos de terror


Depois de ficar quatro dias sem água, alimentação adequada e sem poder sair, os familiares dos internos, quase todos mulheres, desabafaram. “Eles disseram que houve tentativa de fuga mas é mentira, foi rebelião desde o princípio”, afirmou Elaine Santos Silva. Ela ficou retida e disse que não conseguiu sair porque a própria polícia trancou o portão.


“O pior momento foi no primeiro dia, quando os tiros foram disparados no meio das crianças e dos idosos. Eles não respeitaram ninguém e foi a maior correria”, afirmou Patrícia de Jesus. Elas reclamaram e muito da falta de água, energia elétrica e comida. Segundo diversos relatos já no segundo dia, gatos começaram a ser mortos e preparados como refeição para os próprios internos.


“Foi horrível. Foi horrível. Não tinha água, não tinha comida e nós nos viramos como deu. Nunca fui tão humilhada”, não cansava de repetir Esmeralda Santos. Desde domingo ela permaneceu dentro de presídio ao lado do marido e do filho de apenas um ano de idade. Ela teme que a criança esteja desidratada. Segundo a Polícia Militar, o corte de água e energia elétrica foi um problema estrutural do complexo e não uma estratégia utilizada para cansar os presos.


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CRONOLOGIA


Domingo, 29/07: Durante a visita, os presos tomam conta do Pátio 1, depois de fazerem reféns dois presidiários de bom comportamento e três agentes penitenciários. Os 150 visitantes são impedidos de sair. Dos 700 rebelados, dois são feridos à bala e levados para o Hospital Roberto Santos.


Segunda-feira, 30/07: Começa a negociação com os presos, exigindo a volta de 51 detentos, transferidos para a Unidade Especial Disciplinar (UED). Entre eles, os líderes Cabeção e Val Bandeira, considerados bandidos perigosos. Não houve avanços e a unidade fica sem fornecimento de água.
Terça-feira, 31/07: Três rodadas de negociações falham e os presos resolvem fazer novas exigências. Além da transferência dos comparsas, pedem melhorias no atendimento médico e odontológico, na alimentação, maior celeridade no julgamento de processos penais e tratamento humanizado na revista das visitas.


Quarta-feira, 01/08: O dia começa com os presos já cansados e abrindo mão de exigir a transferência de Cabeção e Val Bandeira. A polícia oferece a transferência de 12 detentos, mas um acordo com a volta de 14 internos do UED para o Presídio Salvador. Os reféns são libertados e ninguém ficou ferido.

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 01/08/2007


Presos mantêm cinco reféns há três dias
Rebelião no Complexo Penitenciário do Estado, em Salvador, começou no domingo. Fornecimento de água foi cortado e comida está acabando

Do G1, em São Paulo, com informações da TV Bahia

Cinco pessoas são mantidas reféns no Complexo Penitenciário do Estado, em Salvador (BA), desde domingo (29) - entre elas estão três agentes penitenciários.

A rebelião completou três dias nesta quarta-feira (1º). Além dos reféns, cerca de 150 pessoas que foram visitar os presos no fim de semana estão dentro da unidade, segundo o governo estadual. O fornecimento de água à unidade foi cortado e a comida está acabando.

A negociação da Polícia Militar com os líderes da rebelião foi suspensa no fim da tarde de terça-feira (31) e retomada na manhã desta quarta-feira.

Os presos, que antes pediam a transferência de 51 detentos que estão no Regime Disciplinar Especial, agora querem que apenas dois sejam beneficiados. Eles fazem parte da quadrilha de um dos mais perigosos traficantes de drogas de Salvador, que está foragido.

Os amotinados também pedem mais agilidade nos processos, atendimento médico e odontológico e melhorias na alimentação e no tratamento de visitas.

Denúncia

Na terça-feira, uma comissão de mulheres foi até o Ministério Público Estadual pedir aos promotores uma solução imediata para o caso. Elas também reclamaram de superlotação nos presídios. O procurador-geral da Bahia, Lidivaldo Brito, recebeu o grupo.

Representantes do Sindicato dos Servidores Penitenciários acompanham a negociação do lado de fora do presídio. A entidade divulgou nota condenando os comandos de presos na Bahia, que seriam responsáveis por atos de violência dentro do complexo penitenciário.

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No terceiro dia de rebelião, detentos não cedem em nenhum ponto e ainda fazem novas exigências
Por Jony Torres, do Correio da Bahia de 01/08/07

Mais um dia de angústia e nenhum avanço na tentativa de colocar fim à rebelião no Presídio Salvador, no Complexo Penitenciário do Estado, em Mata Escura. Ontem foram três rodadas de negociações, novas exigências, mas progresso nenhum. O ponto de impasse continua sendo a volta de 51 detentos transferidos há 33 dias para a Unidade Especial Disciplinar (UED). Por enquanto, o clima é considerado tranqüilo, apesar da permanência de 150 familiares e cinco reféns sob o controle de aproximadamente 700 rebelados.


O diálogo entre uma comissão de internos e a Polícia Militar deve ser retomado hoje às 8h, após ter sido interrompido por volta das 17h de ontem. Ao contrário do que se esperava, os presos não cederam em nenhum ponto da pauta de reivindicações e ainda acrescentaram outros pedidos. Além da volta dos criminosos apontados como líderes do presídio, eles querem agilidade na tramitação dos processos judiciários, atendimento odontológico e melhorias na alimentação e no tratamento das visitas.


Segundo a direção do presídio, já está sendo realizado o atendimento odontológico, agentes penitenciárias femininas vão ser contratadas para revistar as mulheres e os agentes masculinos vão passar por uma reciclagem. “Eles querem, mas não podemos permitir por questões de segurança a entrada de alimentos enlatados nem encaixotados”, justificou Francisco Leite, superintendente de Assuntos Penais da Secretária de Justiça e Direitos Humanos (SJDH).


A negociação segue sob comando do capitão Júlio César Ferreira Santos, gerenciador de crises da Tropa de Choque da PM, e em nenhum momento foi alentada a possibilidade de ceder ao pedido de transferência dos presos. O medo da polícia é que a chegada desses homens aumente o clima de insegurança vivido dentro do presídio e possibilite a continuidade de ações criminosas realizadas fora da prisão, orquestradas através de telefones celulares.


“Os intervalos entre uma rodada ou outra de negociação é muito grande”, questionou o deputado estadual Yulo Oiticica (PT), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa. “Negociar é um processo lento, que exige paciência e estratégia, mas posso garantir que esse será o instrumento para solucionar o problema. Não há possibilidade de invasão do presídio pela PM”, assegurou o coronel Leite, tentando tranqüilizar os familiares dos detentos que aguardam informações na porta do complexo.


Celulares - A essa altura, as primeiras negociações da manhã já haviam fracassado. A informação chegou primeiro ao grupo de mulheres, que se comunicam com os presos através de celulares.
Foi desta forma que a reportagem do Correio da Bahia conseguiu obter informações de como está o ânimo dos presos para manter a rebelião.


“Eles me disseram que vão até o fim e não aceitarão nenhum acordo. Eles sabem que depois de começar uma ação destas não adianta voltar atrás”, afirmou Maria de Lourdes, após conversar com um dos líderes do movimento. O marido dela é um dos 51 retidos na UED. Os presos afirmam que não ocorreram agressões, mas funcionários do presídio relatam que os reféns estão sendo ameaçados a todo instante.


Sabendo que os presos têm conhecimento de tudo o que é divulgado na imprensa sobre a rebelião, os negociadores não revelam a estratégia. No entanto, a tentativa de vencer o embate através do cansaço é clara. A energia elétrica das instalações dominadas continua ligada, mas o fornecimento de água e alimentos foi interrompido. “Eles ainda têm água porque fizeram uma reserva, mas a comida já acabou e eles estão matando gatos para se alimentar”, revelou Luciano Patrício, diretor da Penitenciária Lemos Brito, uma das unidades do complexo.

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 31/07/2007


Rebelião no presídio de Salvador dura 48 horas
Da redação do Bahia Meio Dia, 31/7/2007

Às sete da manhã, a movimentação de funcionários do Complexo Penitenciário do Estado era intensa. Agentes carcerários entravam e saiam a todo momento, seguidos por homens do Batalhão de Elite e de Companhias Especiais da Polícia Militar.

Parentes dos detentos rebelados chegaram ao Presídio de Salvador, no bairro da Mata Escura, trazendo cartazes. Eles pediram o início das negociações e a saída dos familiares que estão dentro do complexo desde domingo, quando os portões foram fechados por causa da rebelião.

As negociações suspensas ontem a noite foram retomadas 44 horas depois do início da rebelião. O motim começou ao meio dia de domingo. Cerca de 400 presos que estavam recebendo visitas, se rebelaram contra a transferência de 51 detentos do Presídio de Salvador para a Unidade Especial Disciplinar que também funciona no Complexo Penitenciário.

Eles querem o retorno imediato desses presos para por fim a rebelião. A Superintendência de Assuntos Penais propôs a transferência de 10 detentos. Três agentes carcerários e dois presos considerados de bom comportamento estão sendo mantidos reféns.


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Negociação para encerrar motim acaba em fracasso
Conversações terminaram no fim da tarde sem avanços na reivindicação do retorno dos presos que estão na UED


Correio da Bahia – 31/07/2007
Por Jairo Costa Júnior

Terminou em novo fracasso o segundo dia de negociações para pôr fim à rebelião iniciada, domingo, no Presídio Salvador, situado no Complexo Penitenciário do Estado, em Mata Escura, onde cerca de 700 presos fizeram cinco reféns, mantendo ainda 150 visitantes confinados. Hoje, às 8h, deverá ocorrer uma nova rodada para tentar debelar o motim, que ainda resultou em dois detentos feridos à bala.


Segundo o deputado estadual Yulo Oiticica (PT), membro da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa da Bahia, as negociações de ontem acabaram por volta das 17h30, porque não houve avanços na principal reivindicação dos detentos: o retorno de 51 presos que estão há 32 dias na Unidade Especial Disciplinar (UED), cujo regime é considerado mais rigoroso. Questionado sobre a interrupção das conversações no fim da tarde, Oiticica se limitou a informar que a medida foi tomada por questões de segurança.


A notícia foi recebida com revolta por parte dos quase 40 parentes de detentos amotinados. Desde o domingo, eles estão em vigília na porta do complexo penitenciário à espera do fim da rebelião. “Eu tenho uma mulher e uma filha de seis meses de idade lá dentro. Quero saber se não vai acontecer nada a nenhuma das duas”, disparou o biscateiro Alan de Jesus Santos, 24 anos, cuja esposa, Cristiane Rosa de Jesus, foi visitar o irmão preso por tráfico de drogas e acabou envolvida no motim.


“Vamos fazer tudo que for possível, dentro da legalidade e do bom senso, mas posso garantir que está descartada uma invasão do presídio pela Tropa de Choque da PM”, assegurou o deputado. De acordo com relatos fornecidos por Oiticica, a tensão das primeiras horas da rebelião foi substituída por um clima de maior tranqüilidade no pátio 1 do presídio, onde estão concentrados detentos, visitantes confinados e cinco reféns. Entre eles, dois presos classificados como de bom comportamento (conhecidos no jargão do presídio como “fardas azuis”) e três agentes penitenciários.


Desde as primeiras horas da manhã de ontem, o movimento de parentes e de policiais no complexo penitenciário foi intenso. Algumas das pessoas que estavam em vigília no local tentaram armar, às 9h30, uma barricada de pneus para bloquear a passagem de veículos, mas foram impedidas por homens da PM. Por volta das 11h, a tensão voltou a dominar a unidade prisional, quando os detentos rebelados rodearam de colchões um agente feito refém e ameaçaram atear fogo. Segundo informações não confirmadas, eles queriam a presença de um dentista no local, para tratar a dor de dente de um dos amotinados, sendo atendidos em seguida.



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 30/07/2007


Negociação será retomada na manhã do dia 31/07

De acordo com a Secretaria da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos (SJCDH), o processo de negociação com os presos do Presídio Salvador foi interrompido hoje e terá continuidade amanhã. Segundo a SJCDH, os reféns estão com a sua integridade física preservada.

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A falta de segurança e o excesso de presos nas celas das penitenciárias do Estado tem sido motivo de constantes rebeliões. Três delas aconteceram apenas nos últimos quatro dias e ocasionaram um clima tenso com diversos reféns e feridos.
O que você acha da situação vivenciada pelos presidiários? Comente nas matérias abaixo.

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Confira o vídeo do Jornal Hoje sobre a rebelião no Complexo Penitenciário do Estado que começou por volta de meio dia do último domingo (29/07/2007).




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JORNAL DA MANHÃ - 30/07/2007





Tensão no presídio
Cerca de 700 detentos amotinados mantêm cinco reféns e exigem retorno de presos da Unidade Especial Disciplinar

Correio da Bahia - 30/07/2007
Por Pablo Reis


O pavilhão principal do Presídio Salvador, no Complexo Penitenciário de Mata Escura, permanece sob tensão com uma rebelião que mobiliza cerca de 700 detentos, com cinco reféns e mais de 300 visitantes (entre crianças e grávidas), que permanecem confinados na unidade desde o meio-dia de ontem. O domingo de visitas foi interrompido por um motim classificado como tentativa de fuga pelas autoridades e descrito pelos detentos como represália contra medidas dos diretores penitenciários. As negociações para libertação dos reféns foram interrompidas por volta das 19h de ontem com a chegada a um ponto de impasse entre as partes, quando já havia um saldo de dois presos feridos a bala e o reconhecimento de representantes da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos de que os internos, muitos portando armas brancas, permaneceriam irredutíveis em suas exigências.


Os líderes do movimento reivindicam a transferência de 51 presos de volta para o pátio 1 do Presídio Salvador (antiga Casa de Detenção). Eles tinham sido removidos para a Unidade Especial Disciplinar, considerada mais rigorosa e segura, há 30 dias, logo depois da fuga de Eberson Souza Santos, o Pitty, apontado como maior traficante de drogas em atividade na Bahia. Os negociadores da Polícia de Choque, autorizados pela Superintendência de Assuntos Penais, chegaram a propor a transferência de dez internos, desde que os nomes fossem apontados pelos diretores do presídio. Não houve acordo e o diálogo só deve ser retomado hoje, a partir das 8h.


O único ponto de concordância foi atendido por volta das 18h, quando os rebelados aceitaram liberar dois dos seis reféns, em troca do fornecimento de energia elétrica no pavilhão. Dois presos de bom comportamento, que executam tarefas administrativas e são conhecidos como “farda azul”, foram soltos. Permaneceram sob ameaça outros dois “farda azul” e três agentes penitenciários, que tinham sido capturados logo no início da rebelião, às 12h20.


Além deles, mais de 300 visitantes, incluindo crianças e mulheres grávidas, continuaram cercados pelos batalhões de elite da Polícia Militar que mantêm vigilância no presídio. As informações do superintendente de Assuntos Penais, coronel Francisco Leite, eram de que os visitantes não manifestaram o desejo de sair do pavilhão.


Com toda a tensão que caracterizou o motim, os ferimentos graves em dois presos conduzidos para o Hospital Roberto Santos, no Cabula, e a manutenção dos reféns, o superintendente conseguiu enxergar o período de negociações com “um balanço positivo”. “Não identificamos mais feridos e conseguimos que eles libertassem dois reféns”, observou Leite, ao decretar, às 19h, as negociações encerradas até hoje.


Celular - Durante toda a tarde e início da noite, as informações sobre a situação na cadeia eram passadas diretamente pelos presos, por telefone celular, para os parentes do lado de fora do complexo. Questionado sobre a facilidade de comunicação dos detentos, o superintendente limitou-se a dizer que o sistema para impedir o uso de celular é muito antigo. “Não existe bloqueio telefônico 100% seguro em nenhum lugar do Brasil”, registrou Leite.


O principal interlocutor dos amotinados, de prenome Roberto, confirmou que o objetivo era pedir o retorno de 51 detentos levados para a UED, ao contrário da versão oficial de que houve uma tentativa de fuga frustrada. “Nós conversamos com o diretor (Daniel Pinheiro) pedindo a volta dos 51, mas ele disse que a cabeça dele já estava a prêmio com a fuga de Pitty e que se a gente pudesse ‘virar’ a cadeia que virasse”, declarou Roberto.


O superintendente de Assuntos Penais alegou que a inteligência da polícia não tinha detectado nenhum indício de rebelião. “Eles tentaram fugir e como não conseguiram, apresentaram uma pauta de reivindicações. Chegaram a passar do primeiro portão, mas foram obstaculizados pelo pessoal do presídio no segundo portão”, relatou.


Nesse confronto inicial, onde tiros foram ouvidos até por quem estava do lado de fora do complexo, dois internos terminaram baleados. Júlio Gomes Santos Filho, 23 anos, recebeu um tiro no lado direito do tórax e Adriano de Jesus, 24 anos, foi alvejado nas costas e na perna esquerda. Os dois chegaram lúcidos na emergência do Hospital Roberto Santos e o próprio Júlio comentou que o objetivo da rebelião era a transferência da UED, onde os internos são submetidos a regras mais rigorosas.


O superintendente Francisco Leite afirmou que a transferência foi realizada com o aval do juiz de Execuções Penais para aliviar a superlotação do Presídio Salvador. Atualmente, há cerca de 1.050 detentos no local, que tem capacidade para cerca de 770 presos. Leite garantiu que não houve represálias. “Eles mesmos não quiseram cadastrar os visitantes achando que sairiam da UED depois de 30 dias. Mas isso foi uma decisão administrativa respaldada pela Justiça e não vamos simplesmente acatar o desejo deles”.


Os parentes dos presos afirmam que, por trás da decisão de transferência, há o desejo das autoridades de impedir o surgimento de uma nova liderança na penitenciária, substituindo o foragido Pitty.



Candidatos à sucessão de Pitty


Dois nomes são candidatos à sucessão de Eberson Souza Santos, o Pitty, como líderes do Presídio Salvador, desde que ele fugiu do pátio 1, no dia 27 de junho. Os assaltantes Josevaldo Bandeira e Maurício Vieira da Silva, o Cabeção, um dos parceiros mais próximos do traficante foragido, estão entre os 51 transferidos para a Unidade Especial Disciplinar há um mês, e que motivaram a rebelião iniciada ontem.


As autoridades da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos evitam comentar os nomes porque temem justamente que eles se tornem tão famosos quanto o antigo líder. Questionado se teria negado expressamente o retorno dos dois para o presídio, o superintendente de Assuntos Penais, Francisco Leite, chegou a dizer que não sabia muita coisa sobre eles. Em seguida, ele confirmou a periculosidade da dupla: “Depois da fuga de Pitty, percebemos que eles poderiam criar problemas para nós”.


A mulher do acusado conhecido como Cabeção era uma das cerca de 30 parentes que ficaram durante todo o dia, sob uma chuva fria, aguardando respostas em frente ao Complexo Penitenciário. “A última visita que fiz ao meu marido foi no dia 23 de junho. Depois disso, foi a fuga de Pitty e ele terminou encurralado na UED”, reclamou Marcela Gomes Rodrigues, que tem um filho e está grávida de três meses do segundo bebê.


Ela e as colegas reclamaram que não há visitas na unidade e que a comunicação só pode ser feita a uma distância de 150m. O superintendente declarou que os próprios presos não quiseram registrar os visitantes e que as conversas são feitas pelo sistema do parlatório, uma comunicação por interfone.


Vigília - Além dos mais de 300 visitantes que ficaram no interior do presídio, dezenas de mulheres permaneceram durante todo o dia e noite aguardando um desfecho. Esposas e mães, elas tinham chegado às 7h para tentar um encontro com os parentes na UED. Com o início da rebelião, os celulares começaram a tocar. O momento mais tenso foi por volta das 15h, quando uma delas foi comunicada que o Batalhão de Choque invadiria a cadeia. “A Choque vai invadir, a Choque vai invadir”, gritou, para desespero das colegas. Outra ligação tranqüilizou as parentes dizendo que não havia a ação e os presos estavam reivindicando a entrada da imprensa no local.


Elas mostraram solidariedade quando, encharcadas pela chuva, começaram a rezar pedindo a segurança dos familiares em confinamento. Fizeram uma roda de oração e terminaram o Pai-nosso com um “amanhã, os ladrão (sic) vão sair tudo”.


Os portões do Complexo começaram a ser abertos às 15h30 para a saída dos visitantes que estavam em outras unidades. Quase todos demonstravam surpresa com a visão da imprensa. Como os prédios da Penitenciária Lemos Brito e do Presídio Feminino ficam distantes do Presídio salvador ninguém sabia que uma rebelião tinha sido iniciada havia mais de três horas.


Uma senhora que não quis se identificar chegou de Minas Gerais com o filho para visitar outro filho preso e terminou sendo barrada na porta. Ela foi informada que o acesso ao Presídio Salvador estava suspenso por tempo indeterminado e precisou voltar com os vasilhames de plástico onde levava lanches para o detento.


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Rebelião deixa quatro celas da 5a Delegacia destruídas

Correio da Bahia 28/07/2007

Iniciada na tarde de quinta-feira, em protesto à superlotação, a rebelião dos presos da 5ª Delegacia (Periperi) terminou na manhã de ontem deixando o saldo de um ferido e quatro celas complemente destruídas. Segundo agentes da unidade, os reclusos se revoltaram ao tomar conhecimento pelo delegado titular José Roberto dos Santos que as visitas seriam suspensas, como forma de puni-los por indisciplina.


Um dos mentores da rebelião, segundo a polícia, foi Juraci Pereira dos Santos, 28, acusado de ter disparado o tiro que matou a estudante Joilma Souza Santos, 9, na madrugada da terça-feira de Carnaval, em um microônibus, na Avenida Suburbana. O caso obteve ampla repercussão e ele foi preso cinco dias após o crime, na Baixa dos Sapateiros, centro da cidade.


Preso por roubo e suspeito de vários estupros, Marcos Silva Santiago, 26 anos, foi mantido refém ao longo do motim. Só foi libertado quando os reclusos obtiveram a promessa de que alguns deles seriam levados para outras unidades. A transferência foi realizada ontem à tarde, reduzindo a lotação das celas. Ao final da manifestação, policiais revistaram as celas e recolheram oito chuços (faca confeccionada por detentos com barras de ferro).


O motim foi controlado com a participação de equipes do Centro de Operações Especiais (COE), das Rondas Especiais da Polícia Militar (Rondesp), Rondas Tático Motorizada (Rotamo) e do Grupamento Aéreo da PM (Graer).


Refém - A rebelião começou por volta das 16h de quinta-feira, com a queima de roupas e colchões por parte dos detentos. Durante a manifestação, os rebelados abriram um buraco em uma das celas e fizeram refém Marcos Silva, que chegou à unidade na segunda-feira. Os amotinados o espancaram e ameaçavam matá-lo, caso a questão da superlotação não fosse solucionada.


As negociações foram conduzidas pelos delegados José Roberto, titular da 5ªDP, e pelo plantonista Pedro Andrade, além de Cleiton Leão do COE, que convenceram os internos a libertarem o refém, por volta das 5h30, pondo fim à rebelião.


O final do motim não trouxe paz aos familiares dos detentos que se aglomeravam à porta da 5ªDP em busca de notícias. A dona de casa Dilza Bispo de Andrade, 48, tia de Adilson Vale de Araújo, 23, preso por tráfico de drogas, por exemplo, reclamava da falta de informações precisas. “Foi um tormento para todos nós, pois ninguém explicava o que estava acontecendo”, contou.

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